Publicado no Jornal O Estado de S. Paulo – Empregos.
Domingo, 29 de junho de 2014

Há muito tempo se discute o termo trabalho como positivo e engrandecedor. Mas, afinal, como isso pode fazer sentido para uma palavra originária do latim labor, que quer dizer penoso, ou do francês travail, que se origina de um instrumento de tortura romano? Ou, mesmo hoje, quando usamos a expressão trabalho para designar sofrimento em troca de algo? Encontrar sentido no trabalho, realização e felicidade não são artefatos que acompanham a nossa civilização. Estas expressões possuem significados novos dentro do universo organizacional.

A prova desta “modernidade” são as palavras realização e satisfação, que não aparecem sequer no dicionário de Samuel Jackson de 1755. Presos a empregos herdados familiarmente (por pais e avós), mantidos por castas sociais (como açougueiros e ferreiros) e depois em empregos elegidos por valores e significados que não refletem exatamente seus valores e anseios mais íntimos, a sociedade construiu sobre si um mundo de trabalho e carreira que faria sentido somente àquelas massas.

Outra mudança significativa no trabalho diz respeito a uma “desintegração” dos saberes, como alerta Edgar Morin: “Perdemos o sentido das coisas por não encontrarmos mais ligação entre elas, nem entre seus saberes”. Da mesma forma, perdemos o sentido de integralidade do ser humano, de ser uma coisa só, no trabalho ou em nossa vida pessoal. De realizar e sermos realizados de forma feliz, como disse Chateaubriand: “Um mestre na arte de viver não faz distinção alguma entre trabalho e diversão; trabalho e lazer; mente e corpo; instrução e recreação. Ele dificilmente sabe qual é qual. Simplesmente segue sua visão de excelência em tudo o que está fazendo e deixa que os outros determinem se ele está trabalhando ou se divertindo. Para si mesmo, ele sempre parece estar fazendo as duas coisas.” Mas como seguir nossa visão de excelência tão perturbada e ofuscada pelos conceitos e falsas orientações do mercado, da vida e das escolhas? A resposta parece estar–novamente–na busca imersa de nosso verdadeiro eu, de nossos valores e paixões. Naquilo que Sócrates já tinha determinado como essencial a qualquer vida, à construção de qualquer significado: o nosso autoconhecimento.

É o autoconhecimento o processo legítimo que nos garante, não as melhores escolhas, mas as escolhas mais acertadas. Acertadas com aquilo que somos e queremos ser, tanto no trabalho como em outros setores da nossa vida. Estas ferramentas de visão de excelência sobre si, de autoconhecimento, não estão interligadas. O trabalho parece estar mais condicionado a um conjunto de experiências e conhecimentos correlacionados e exteriores ao indivíduo do que a movimentos e buscas mais profundas sobre sua identidade. Os reais valores e propósitos parecem muito distantes de uma agenda corporativa de gestão de carreira ou de alguns serviços consultivos de mercado. Num dos workshops com gerentes de uma companhia que ministrei, foi polêmico e confuso para eles começarem a atividade com a pergunta: O que é importante para você? Souberam fazer mais perguntas e especificá-las, como especialistas de mercado, em vez de responderem com simplicidade e iniciarem o exercício.

Quando surgiam respostas mais genuínas, elas vinham rápidas e genéricas, como: o que é importante é minha família, meus filhos, fazer as coisas certas. O que tentávamos fazer com aqueles executivos era que pensassem de verdade porque estavam ali, o que queriam realmente fazer, como sair do mecanicismo do trabalho de carreira organizacional e dar mais sentido e significado às suas atividades e às suas vidas.

Após pesquisar as diversas motivações que oferecem sentido, parece que o prêmio de trabalho mais significativo vai para aqueles que buscam atividades intrinsecamente recompensadoras que fazem a diferença, que utilizam seus talentos, que refletem as suas paixões – ou que envolvem uma combinação inebriante desses três fatores (Roman Krznaric, 2012). Saber quem somos, o que queremos e o que nos move é o grande sentido do trabalho e da vida.

Ana Cecília Vidigal Passos
Diretora de Desenvolvimento Organizacional da WePeople
ana@wepeople.com.br